Essa semana eu estava lendo na revista Carta Capital uma reportagem sobre o cientista Charles Darwin que trazia vários trechos de seus diários pessoais.  Muitos registros narravam não só a natureza do Brasil mas também suas percepções acerca do povo brasileiro. Apesar de muito irônico e sarcástico, muitas vezes exagerado e ofensivo, uma de suas frases me chamou atenção:

“Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó da sola dos pés dos brasileiros”.

Essa frase foi dita lá pelos idos de 1831. Evidente que a parte onde nos chama de miseráveis e desprezíveis não é agradável, mas temos de concordar que a questão da burocracia no Brasil permanece intolerável. E apesar de fugir lum pouco do tema do blog, ainda que possa ser útil a determinados viajantes, vou contar meu último drama para ilustrar a afirmação.

Eu precisava fazer a convalidação/legalização (cada lugar usa um nome) do diploma do Vinicius, que como alguns já sabem,  estuda em Barcelona. Eram 5 passos, descritos e relatados abaixo.

1) reconhecer firma das pessoas que assinaram o diploma e o histórico escolar:

O primeiro passo ocorreu relativamente bem. Mesmo sabendo que bastava apenas 1 assinatura reconhecida em cartório, eu não queria correr o risco de ter alguma complicação mais adiante e  por isso tentei obter todas as 3 assinaturas.  Não consegui pois uma das professores não lecionava mais na universidade e não respondeu ao email informando onde teria registro em cartório.

2) obter selo do Ministério de Educação

Essa parte dá vontade de chorar! Liguei para o 0800 que não sabia informar nada – exatamente como todos os outros 0800 que já conheci. Me passaram um email onde eu poderia obter a informação correta e mesmo após muitas súplicas não me forneceram nenhum número de telefone para agilizar o processo. Escrevi para o tal email e dois dias depois eu recebi uma resposta dizendo que eles iriam me responder o email. Hahahaha.

Resumindo, durante 22 dias vivi um troca-troca de emails desencontrados pois sempre eram pessoas diferentes que respondiam,  cada um dando uma informação contrária a anterior.  Finalmente consegui um  endereço de email com o nome de uma pessoa real e descobri que no Brasil existe uma lei onde as universidades tem autoridade para emitir diploma, sendo desnecessário o reconhecimento do MEC.

Ou seja, eu não precisava nem de selo, nem de declaração, nem de nada. Afirmaram também que a Embaixada da Espanha sabia dessa lei e que eu não precisava me preocupar. Medo!!!

3) Obter selo do Ministério das Relações Exteriores

Consegui localizar um telefone do setor no Ministério das Relações Exteriores onde eu poderia obter o próximo selo (DAC – Divisão de Assistência Consular). Porém o atendimento é realizado somente durante 2 horas ao dia. Gente, quero esse emprego! Fiquei horas tentando ligação, mas só dava ocupado.

Quando me atenderam, falaram que eu tinha duas opções: ir pessoalmente no DAC, que fica em Brasília, e obter o selo no mesmo dia. Ou enviar por sedex e aguardar 30 dias! Agora vai entender porque a necessidade de 30 dias para dar uma carimbadinha de 2 segundos.

Liguei para uma amiga que reside lá e pedi esse favor a ela. O problema é que depois de muitas informações desencontradas eu não fazia a mínima idéia de qual fria eu a estaria colocando. Fiquei torcendo para que fosse tão fácil como me informaram. E foi. Ufa! Ela conseguiu o carimbo em menos de 1 hora de espera.

4) Obter selo com a Embaixada da Espanha no Brasil

A embaixada informa que após a entrega dos documentos, a devolução é feita somente após 72 horas. Porém, eu consegui receber no outro dia. Foi rápido e fácil. Custou R$ 32,00.

5) Traduzir o diploma com tradutor juramentado.

Essa fase deve ser feita na Espanha. Ainda está em andamento.

Concluindo: parece que muitas coisas são iguais a 200 anos atrás. Se Darwin estivesse vivo, diria que alguns hábitos brasileiros ainda não evoluíram. Mas certamente ele seria mais sarcástico ainda ao comentar o desmatamento das florestas brasileiras.