Nosso roteiro no Atacama estava indo bem. Fizemos o tour astronômico no primeiro dia, Lagunas Altiplâncias e Cejar no segundo, Geyser, Valle de la Muerte e la Luna no terceiro. E ainda comemoramos o ano novo. Ufa! Estávamos podres de cansados e sem nenhuma passeio reservado para o quarto dia. Então fomos atrás de um passeio pelo Salar de Tara. Não esperávamos que seria tão complicado.

Já era tarde, mais de 21 horas. Começamos a buscar de agência em agência, seguindo do fim da Rua Caracoles em direção ao início, incluindo as ruas laterais. Muitas agências já estavam fechadas e outras ou não ofereciam Salar de Tara ou já estavam lotadas. Por alguns momentos, não conseguir o tour era um alívio. Isso significava que poderíamos dormir até mais tarde e recuperar as energias. Mas também significava um dia muito monótono, sem nada para fazer.

Enfim encontramos uma agência com 2 lugares disponíveis. Cinco minutos depois, entram 2 brasileiros buscando pelo mesmo tour. Sinto muito rapazes, pegamos os últimos lugares e daqui até o fim da Caracoles não há nada disponível. E eles dizem que passaram em todas as agências desde o ínicio da Caracoles e nada também. Nos sentimos os mais sortudos!

Mas a agência, que é uma das maiores da cidade, não aceitava cartão de crédito. E o vendedor nos avisou: todos os caixas da cidade estão sem dinheiro. Não!!!! Não podíamos acreditar naquilo. O dinheiro que tínhamos não era suficiente (o tour era o mais salgado de todos: 45 mil pesos por pessoa). Ainda tentamos fazer uma troca no hotel, mas eles também não tinham dinheiro disponível. O vendedor disse que poderíamos deixar um documento nosso como garantia, mas era sábado e ficamos com receio de que não repusessem dinheiro até segunda-feira, dia em que íamos embora. O jeito era desistir mesmo. A única coisa que pensamos foi: @()$*%&$(&%*!

Acordamos um pouco desanimados: e se nos arrependessemos muito por perder o Salar de Tara? Afinal, não pretendíamos voltar ao Atacama. O jeito era relaxar. Fomos caminhar pela cidade, fazer algumas fotos, conhecer o museu Padre La Paige. Mas era 13hs e já não havia mais nada para fazer. O Vinicius  estava mais chateado do que eu e quando sugeriu alugarmos uma bike eu concordei na hora, pois sei que ele ama andar de bike e pratica até dow hill. Só que eu, tirando o passeio super fácil que fiz na Vinícola Casa Silva dias antes, nem lembrava a última vez que tinha andado de bike.

As rotas possíveis eram Valle de la Luna (que já conhecíamos) ou Pukara de Quítor (3km) e Quebrada del Diablo (12km). Adivinha qual rota ele escolheu? Fiquei quieta e pensei com meus botões: beleza, não vou aguentar nem chegar na Pukara, mas vamos lá, quando eu desmaiar ele vai mudar de idéia.

Voltamos para o hotel para trocar de roupa, compramos água e frutas e seguimos rumo. A maior parte do caminho foi tranquila. O Vinicius me perguntava de 2 em 2 minutos: você está bem? Quer parar? Após passar pela Pukara de Quitor (sim, eu consegui!) paramos embaixo de uma árvore para tomar água, comer uma fruta. E bora de novo.

O mais difícil não era pedalar, era pedalar com aquele calor. Tudo que eu queria naquele momento era encontrar uma cachoeira. Ao que o Vinicius respondeu: “não sei se você se deu conta, mas está no meio do deserto”. “Eu sei, mas eu ainda assim posso sonhar com uma cachoeira”.

Depois de muitos quilômetros, chegamos em uma bifurcação. Todas as placas apontavam para o mesmo lado. Mas  o caminho era uma fria, só subidas. Aí eu desisti mesmo. Não tinha como enfrentar aquilo. O lugar era muito bonito, fizemos umas fotos e retornamos.

Ao chegar novamente na bifurcação, passou um pequeno grupo em bike e uma das meninas disse: ali adiante tem uma piscina natural incrível. E aquilo era tudo o que precisávamos. Entramos de roupa e tudo. Nossa temperatura corporal deve ter ido de 1000 graus para 10. Que lugar! O Atacama é assim, cheio de surpresas.

A água gelada nos deu ânimo para reinicar a pedalada. Um morador veio conversar, nos explicou que a Quebrada del Diablo iniciava logo ali e que a placa estava com outro nome: Quebrada Chulacao.

E então iniciamos a Quebrada. Nossa. Que lugar.  A trilha seguia por dentro de pequenas cavernas e muitas vezes precisávamos abaixar a cabeça para não bater nas rochas, que ganhavam um coloração avermelhada com a luz do sol. Por duas vezes tivemos que erguer a bike sobre os altos degraus naturais que se formaram para dar continuidade ao passeio. Seguimos até o fim da trilha, muito felizes, muito impressionados com a natureza. Nem o sol atrapalhava mais, tamanha era o fascínio que o  lugar exerceu sobre nós.

Tá vendo essa foto abaixo? Consegue enxergar o caminho demarcado? Pois essa é a Quebrada del Diablo. Foi um dos passeios mais fabulosos que fizemos e o melhor: não havia mais ninguém lá, só nós e o deserto. A impressão que eu fiquei, é que a maioria das pessoas segue somente até o começo da Quebrada. Ninguém vai adiante. Ou pelo menos, não naquele dia.

Eu me empolguei tanto, que na volta já me sentia uma profissional. Me senti “A” esportista, inclusive derrapando a toda velocidade pela terra fofa que surgia em alguns trechos. O Vinicius se surpreendeu tanto com minha desenvoltura que nem precisava mais se preocupar comigo pelo resto da trilha. Agora me respondam: eu não mereço o prêmio de melhor esposa do ano???

Brincadeiras à parte, nós elegemos esse o nosso passeio favorito. Recomendamos fortemente que vocês o façam também. Não é difícil. Se eu fiz, qualquer um pode fazer também. O melhor horário para iniciar é o que fizemos, lá pelas 14hs/15hs. No início vai estar bem quente, mas na volta será muito agradável. E o preço da brincadeira? Apenas 3 mil pesos por bike.

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